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quinta-feira, 16 de julho de 2015

O velho e o garoto

Certa vez, sentado, a beira de um lago, um garoto tentava escrever uma carta romântica para sua amada, pensava ele que devia ser fácil, pois é só postar algumas palavras bonitas e frases de impacto, que tudo sairia de modo que as palavras fluiriam naturalmente de sua boca, mas se caso isso não acontecer bastava fazer algumas cópias de livros e tudo estaria resolvido, embora pensasse assim o garoto sabia que o que ele estaria escrevendo não seria dele e nem sairia do seu sentimento.
       Mas ao observar ao seu redor, viu que naquele lago havia um velho com aparência muito serena, um ancião por assim dizer, o garoto percebera que o velho olhava para o lago, para as folhas e rabiscava algo em um papel que trazia consigo, o modo com que fazia e a naturalidade com que fazia lhe chamaram a atenção do garoto, pois como pode ele (o velho) olhar para qualquer coisa e escrever sem parar, em pedaços de papel que em momentos lhe chegavam a faltar-lhe por culpa de sua imaginação.
    O garoto começou a pensar consigo mesmo, até em alguns momentos achando haver algo errado com ele, pois escrever uma carta não poderia ser tão difícil assim, já que todos o fazem, por que ele, justo ele não faria também?
    A tarde passava junto com a paciência do garoto, que se desesperava com sua própria mente e seu coração, pois se nada conseguia tirar de bom deles, por que haveria sentido em viver? Ao entardecer, um lindo por do sol se estendia pelo lago, refletindo todo esplendor da linda tarde que com uma suave brisa derrubava algumas folhas amarelas e outras marrons de suas arvores, em uma perfeita tarde de outono, junto com as folhas caia também por terra toda a esperança que havia no garoto, então olhou novamente para o velho e viu um sorriso que a muito não via no rosto de uma pessoa, um sorriso simples e puro que fazia contraste com sua barba e cabelos brancos, feito neve.
    Ao ver tal coisa, o jovem levantou-se e caminhou contornando o lago em direção ao velho, em passos ritmados, sem pressa, pensando no que iria dizer-lhe e como faria para explicar o que acontecia com ele, ao se aproximar do velho, o garoto senta ao seu lado num vasto gramado que cerca o lago, em num gesto de humildade lhe dá a mão lhe falando boa tarde.
   O silêncio pairava no ar, o velho não lhe respondera o cumprimento, então o garoto começou a pensar no que dizer, pois havia se tornado em uma situação embaraçosa, juntando seus papeis e seu lápis, o garoto começa a se levantar para sair, de repente não mais que de repente em um momento inesperado ouve um amistoso boa tarde do velho.
    O garoto volta a sentar, abrindo um sorriso que a muito não fazia, e o velho com toda a sua sabedoria e maestria que só o tempo pode lhe dar, pergunta ao garoto que tanto lhe atormentava, já que havia percebido descrença e temor em suas palavras.
    Com a pureza de uma criança o garoto lhe fala o que aconteceu, e pede conselhos ao velho, pois percebera que talvez por sua vasta experiência, teria facilidade em fazer fluir as palavras, procurando um pouco de sabedoria para poder escrever coisas bonitas para sua amada, o velho levantou-se e convidou o garoto para caminhar com ele, os caminhos que se faziam ao longo do lago.
    Com uma voz rouca castigada pelo tempo, o velho começa a lhe falar da vida de tudo que a segue seus temores e virtudes, ouvindo atentamente tudo o jovem procura anotar cada palavra que o velho lhe fala, para poder usar tudo em seus textos, mas o velho ao perceber isso, pede ao garoto que largue seu lápis e papel e lhe faz uma pergunta com a qual deveria haver resposta imediata, o velho lhe pergunta o que o garoto percebeu, o que ele notou nessa caminhada, o que ele aprendeu com tudo o que se passou ali.
    O garoto respondeu-lhe que havia prestado atenção em cada palavra dita e que observou tudo que o velho fazia para não perder nenhum detalhe, o velho olhou então para o garoto e falou que ele ainda não estava preparado para ouvir suas palavras, que se fazia necessário muito mais que simplesmente prestar atenção em suas palavras, era necessário compreende-las.
    Não entendendo o que ele quis lhe dizer, o garoto pediu ajuda para o velho para poder compreender e entender o mundo da forma que ele via e não da qual pensava ser, o velho então lhe falou que era tarde e pediu ao garoto que voltasse no dia seguinte, que então lhe explicaria o que ele queria saber.
   Chegando perto da mesma hora do dia anterior, o garoto vai para o lago, a tarde era fria mais nada impediu de ir ao encontro do velho, que estava no mesmo lugar sentado e rabiscando alguns versos em um pequeno pedaço de papel, ao se aproximar o velho pediu a garoto que sentasse, e lhe fez a mesma pergunta novamente, ao ver que o garoto não havia encontrado resposta o velho começa a lhe explicar, o porquê da pergunta e o que ela tem haver com a sua vida.
    O velho lhe explicou que quando o convidou para caminhar não foi para prestar atenção nas pessoas, mas sim nos pássaros, arvores, animais que ali estavam, no ar, no sol e no céu, o garoto interrompendo lhe perguntou o porque disso e o velho lhe falou, que as pessoas são apenas figuras que compõem um meio, são pequenas peças de um grande quebra-cabeça e que para compreender isso o garoto teria que prestar a atenção nos detalhes que a vida oferece, se perguntar o porque das coisas serem daquele jeito e  não de outro, se perguntar por que a vida nos oferece o poder e ir e vir, sentir, falar e ouvir, que quando ele o chamou pra caminhar era para sentir o ar puro, respirar fundo e sentir o doce sabor da vida, era para perceber que a vida é feita de pequenos momentos, que juntos se fazem valer por uma vida intera, era pra ele perceber que a vida não é feita só de alegria, mas de tristeza também, que nada se perde, tudo é um aprendizado constante e que as pessoas que cruzam nossas vidas são especiais, da forma que são e não por serem quem são.
   Também explicou que nunca se pode deixar de lado aquele momento, de dar um abraço, um beijo em que se gosta ou se tem admiração, que muitas vezes pecamos por não dar valor às coisas simples, pois só nelas que se encontra a verdadeira felicidade, que deixamos de fazer o que pensamos por achar que os outros vão achar isso ou aquilo e na verdade todos têm fraquezas.
   O velho lhe falou que ao entender essas palavras, o garoto saberia então o verdadeiro significado da vida e que as palavras sairiam naturalmente de sua cabeça, que então teria sabedoria o suficiente para escrever sobre a vida e sobre o amor, que não importa o que escrevam se não for de coração de nada vale, falou pra valorizar e aproveitar a sua vida, pois o fato de tê-la já é uma dádiva.
    O garoto ficou surpreso com tais palavras, ficou mudo por alguns instantes e com os olhos cheios de água falou que aquilo tudo era lindo e que nunca havia passado se quer pensamento parecido com aquilo na sua mente, agradeceu o velho por tais palavras e falou que já poderia escrever a sua carta com sentimento puro e verdadeiro, disse que entendeu o significado de suas palavras.
   Falou que aproveitaria a vida, viveria, porém, com responsabilidade sem perder a pureza, e pediu qual era seu nome, o velho, há o velho, com toda sua sabedoria, simplesmente lhe falou: Eu sou o ar, a terra, os pássaros, a vida, a morte, eu garoto, eu sou simplesmente um velho.
Pablo Danielli

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