quinta-feira, 23 de julho de 2020

[Neon]

Ela era uma forma
Cheia de planos,
Que se partiram...
Como passos deixados no ar.

Era uma beijo
Um abraço
Um olhar.

O príncipe encantado
Ao invés de fotos,
Lagrimas para lembrar.

Agora
Sua sombra,
Não é mais a mesma.

Mudou, a silhueta.

Os sonhos quebrados
Não colam mais.

Uma viagem pela América
Um show de rock,
Que não se ouve mais.

O que era à dois,
Continuou sendo dois...
Mesmo sendo deixada para trás.

Um quarto de motel
Um neon na janela,
São apenas recortes
De uma última dança.

Prazer, que virou dor.

E agora, as noites em claro
São gastas, com falsos planos.
Déjà-vu de filmes na madrugada,
Gosto de café aguado...
Xícaras trincadas.

A gravidade,
Ainda fazia seus pés ficarem presos
Ao passado.

E meio à noite, sem norte...

Postagens vazias e sem sentido,
Frases prontas que não preenchiam o vazio.

Nenhuma chuva de likes
Refletida nas cores ausentes na janela,
Tocava seu corpo à deriva.

A solidão, ainda latente...

Tinha como companhia
Rabisco novo,
Que se fazia aos poucos
Presente.



Pablo Danielli

sexta-feira, 22 de maio de 2020

[Negra]

Aquela negra,
Cobiçada pelo sol...

Desejo de todos os olhares,
Mil bocas não são suficientes.

Porque a rua é nada,
É vazio...
Que só acaba com o calor,
Da imaginação do teu corpo.

Mulher,
Que faz todo homem,
Largar brinquedos.

Cheiro embriagado,
Fazendo todo copo vazio chorar.

Negra
Negra
Negra

Dona do próprio pulsar.
Castiga a palavra
Castiga os joelhos,
De quem não sabe rezar.

Curvas, silhuetas, metamorfose.

Boca que saliva
Amaldiçoa as mãos,
Que não podem tocar.

Fuga da realidade
Endereço fixo na cabeça,
Daqueles que são fracassados,
E morrem no meio da noite...

Esperando pelo teu corpo,
Que nunca chega!

Porque tu mulher,
Escolhe em que cama
Teu sexo deixar.



Pablo Danielli

quinta-feira, 30 de abril de 2020


[Pulsar]

Nenhum verso,
Tem a força de um suspiro.
Não existe rabisco ou frase,
Maior que o desejo.
Nenhuma Odisseia
É maior que o pulsar,
Silencioso da vida.
É da carne que é feita poesia!
E é da vida que é feita fantasia!
Sem isso...
Tudo é vazio!
Sonhar acordado, ainda sim é sonhar...
E só sente quem vive, mesmo que sem saber.
O teu sentir, não existe sem tua dor.
E teu prazer é tolo, por pensar ser rei
Em um mundo sem calor.
O silêncio da tua boca,
É como uma música sem melodia.
Incompleta, incapaz de sentir a vida.
Uma alma acomodada...
Lentamente esfarela,
Não sente e nem realiza.

Pablo Danielli

segunda-feira, 16 de março de 2020


[Teias]

As aranhas tecem suas teias
As aranhas tecem suas teias

Sutis, leves, mortais.

Até o mais sóbrio pensamento,
Fica preso em sua imensidão.
Até a mais inteligente das formas,
É capaz de se perder.

Menos o tempo...
Que corrói a fina teia,
Como o ferro imerso em agua.

Lentamente, desatando o emaranhado.
Quebrando nós.

Corroendo certezas.

Faz todo o pesar
Todo o trabalho
Toda forma definida
Mal compreendida...
Ser refeita.

O tempo não existe para palavras ausentes,
Não é castigo e tão pouco presente.
Apenas o vazio,
De formas de vida que definham
Lentamente.

As aranhas são dependentes de suas teias.

Incapazes de viver sem elas,
As aranhas são presas de si mesmas...

São reféns, de suas ideias.

Na solidão,
Tecem suas teias.

Pablo Danielli

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020


[As vozes]

As vozes estão mudas
As vozes, estão mudas.

Objetos, em forma de palavras...
Enjaulados, prisões feitas de carne.

O ar rarefeito ao nível do chão.

Um grito no silêncio,
Que rompe paredes...

Sem acordar ninguém.

Figuras distorcidas
Recortes de expectativas,
Convulsão, desilusão.

O corpo parece flutuar
Em um vazio, existência.

Pupilas dilatadas ecoam
O que o som não é capaz.

As vozes, mudas...
Não mudam.

Rosnados, preces, ilusão.

7 bilhões não fazem um coração.

Pablo Danielli

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020


[Vento]

Em certa tarde bucólica
O vento sussurrava algo,
Mas não consegui entender.
Ele arranhava a janela,
Uma, duas, três vezes...
Mesmo com toda sua força,
Eu, em meio a monotonia
Ainda custava a crer.
Então me aproximei da fina e fria camada
De vidro que me separava da realidade.
Tão próximo do mundo
Que meu ouvido, pode sentir seu assoviar.
E o vento, falava.
E não era pura e simples loucura...
Era lembrança tua.
Era, lembrança tua...
Que ele carregava
Entre os traços cinzas da cidade.
E no meio das horas
Observando os prédios,
Escuridão, solidão,
Algumas luzes acessas,
Me perguntava se o vento
Generoso comigo,
Também batia em outras janelas...
Pulsava em mim a duvida
Se outras pessoas também tinham lembrança tua.
Mas não poderia ser,
Não poderia existir desejo igual ao meu.
Mesmo se quisessem
Nenhum corpo pálido veria a luz,
Que tua imagem trazia no cinza do multidão.
Teus defeitos eram minha sina,
Domavam minha imaginação.
Mesmo a distância
O pulsar do vento,
Era lembrança tua...
Em batidas incompletas de um
Coração.

Pablo Danielli

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020


[Queda]

O olhar lascivo
Corrói a penumbra,
Todos os cheiros...
Todos os dedos...
Carne, insaciável.
Selvageria disfarçada,
Sombras de submissão.
Paralisia da mente
Afogada em vício,
Silhueta de roda gigante.
Frenesi, histeria, melancolia...
Transpiração.
Boca, tensão, palavras.
Um pulo cego,
Gemido.
Noite, desejo, recomeço.
Ego inflado, domado
Por outra tara.
Vazio
Vazio
Vazio
Um luz apagada
Uma janela fechada
Corpos desconexos
Medos preenchidos
Com sexo,
Mais nada.

Pablo Danielli

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

[Invisíveis]

Há dois tipos de amores
Dos quais não se pode viver.
O que se perdeu,
E o que ainda não chegou.
O primeiro...
É uma lembrança cheia de retalhos,
Adocicada pelo tempo.
O segundo...
Apenas uma expectativa,
Cheia de falsas memorias
Do que ainda não se sentiu.
Armadilhas certas para corações pulsantes.
O único amor possível de se contemplar
É o que nossos olhos podem ver.
Por isso o relógio parece nos deixar tristes.
Estamos sempre um tic à frente,
Ou um tac à trás do que podemos sentir.
Mas raramente,
Em mesmo compasso com nossa realidade.
Amarras frágeis,
Que sufocam a alma.
Assim, sem perceber...
Amores possíveis,
Se tornam invisíveis.

Pablo Danielli

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019


[Casas invisíveis]

Sentou à mesa
Percebeu o vazio,
Que habita seu lugar.
Olhou-se no espelho
Notou a falta do seu reflexo,
Falava, em vão...
Os corredores vazios
Apenas ecoavam sua falta.
Rabiscava planos no papel
Que ao ler, sempre parecia borrado.
Os retratos não eram fotografias,
Em seu olhar não se refletia,
A espera, indecifrável
Da luz perdida.
Os passos não faziam ranger a casa,
As roupas não vestiam nada além do corpo.
Portas sempre trancadas,
A espera de algo que rasgue a sensação de sufoco.
Casas Invisíveis,
Cheias de pequenos vazios...
Sonhos imperceptíveis
Afetos fragmentados
Manchado na pele,
Um lugar no sofá, marcado.
A deriva de si mesmo,
Reza...
Esperando estar sonhando acordado.

Pablo Danielli

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019


[PÓ]

Eu sou o pó
Corroído dos pés das estátuas,
Da lembrança que se passou...
Das pessoas que não são memórias.
Sou parte desta anomalia de concreto
Dos esqueletos cinzas e ruas vazias,
Que contemplam...
Rostos, hoje que são fotos em lapides.
A massa, feita de barro,
Pisoteada pelas palavras escondidas.
A força de um copo vazio
Ao lado da cama.
A beleza ausente, que toca seus lábios...
Quando o calor deixa o corpo.
A certeza tola inexistente
A malicia da dúvida persistente,
E toda estupidez latente.
Que somente o tempo
Que o ser, insiste em fragmentar...
É capaz de mostrar.
O silêncio moribundo,
E tudo nele contido.
Eu sou o pó das lembranças distorcidas,
Corroídas, que nem ao menos o sal do que corre pelo rosto
É capaz de acabar.
Eu, eu, eu...
Cujo o silêncio do universo
Ainda há de assimilar.


Pablo Danielli

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