quinta-feira, 30 de abril de 2020


[Pulsar]

Nenhum verso,
Tem a força de um suspiro.
Não existe rabisco ou frase,
Maior que o desejo.
Nenhuma Odisseia
É maior que o pulsar,
Silencioso da vida.
É da carne que é feita poesia!
E é da vida que é feita fantasia!
Sem isso...
Tudo é vazio!
Sonhar acordado, ainda sim é sonhar...
E só sente quem vive, mesmo que sem saber.
O teu sentir, não existe sem tua dor.
E teu prazer é tolo, por pensar ser rei
Em um mundo sem calor.
O silêncio da tua boca,
É como uma música sem melodia.
Incompleta, incapaz de sentir a vida.
Uma alma acomodada...
Lentamente esfarela,
Não sente e nem realiza.

Pablo Danielli

segunda-feira, 16 de março de 2020


[Teias]

As aranhas tecem suas teias
As aranhas tecem suas teias

Sutis, leves, mortais.

Até o mais sóbrio pensamento,
Fica preso em sua imensidão.
Até a mais inteligente das formas,
É capaz de se perder.

Menos o tempo...
Que corrói a fina teia,
Como o ferro imerso em agua.

Lentamente, desatando o emaranhado.
Quebrando nós.

Corroendo certezas.

Faz todo o pesar
Todo o trabalho
Toda forma definida
Mal compreendida...
Ser refeita.

O tempo não existe para palavras ausentes,
Não é castigo e tão pouco presente.
Apenas o vazio,
De formas de vida que definham
Lentamente.

As aranhas são dependentes de suas teias.

Incapazes de viver sem elas,
As aranhas são presas de si mesmas...

São reféns, de suas ideias.

Na solidão,
Tecem suas teias.

Pablo Danielli

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020


[As vozes]

As vozes estão mudas
As vozes, estão mudas.

Objetos, em forma de palavras...
Enjaulados, prisões feitas de carne.

O ar rarefeito ao nível do chão.

Um grito no silêncio,
Que rompe paredes...

Sem acordar ninguém.

Figuras distorcidas
Recortes de expectativas,
Convulsão, desilusão.

O corpo parece flutuar
Em um vazio, existência.

Pupilas dilatadas ecoam
O que o som não é capaz.

As vozes, mudas...
Não mudam.

Rosnados, preces, ilusão.

7 bilhões não fazem um coração.

Pablo Danielli

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020


[Vento]

Em certa tarde bucólica
O vento sussurrava algo,
Mas não consegui entender.
Ele arranhava a janela,
Uma, duas, três vezes...
Mesmo com toda sua força,
Eu, em meio a monotonia
Ainda custava a crer.
Então me aproximei da fina e fria camada
De vidro que me separava da realidade.
Tão próximo do mundo
Que meu ouvido, pode sentir seu assoviar.
E o vento, falava.
E não era pura e simples loucura...
Era lembrança tua.
Era, lembrança tua...
Que ele carregava
Entre os traços cinzas da cidade.
E no meio das horas
Observando os prédios,
Escuridão, solidão,
Algumas luzes acessas,
Me perguntava se o vento
Generoso comigo,
Também batia em outras janelas...
Pulsava em mim a duvida
Se outras pessoas também tinham lembrança tua.
Mas não poderia ser,
Não poderia existir desejo igual ao meu.
Mesmo se quisessem
Nenhum corpo pálido veria a luz,
Que tua imagem trazia no cinza do multidão.
Teus defeitos eram minha sina,
Domavam minha imaginação.
Mesmo a distância
O pulsar do vento,
Era lembrança tua...
Em batidas incompletas de um
Coração.

Pablo Danielli

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020


[Queda]

O olhar lascivo
Corrói a penumbra,
Todos os cheiros...
Todos os dedos...
Carne, insaciável.
Selvageria disfarçada,
Sombras de submissão.
Paralisia da mente
Afogada em vício,
Silhueta de roda gigante.
Frenesi, histeria, melancolia...
Transpiração.
Boca, tensão, palavras.
Um pulo cego,
Gemido.
Noite, desejo, recomeço.
Ego inflado, domado
Por outra tara.
Vazio
Vazio
Vazio
Um luz apagada
Uma janela fechada
Corpos desconexos
Medos preenchidos
Com sexo,
Mais nada.

Pablo Danielli

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

[Invisíveis]

Há dois tipos de amores
Dos quais não se pode viver.
O que se perdeu,
E o que ainda não chegou.
O primeiro...
É uma lembrança cheia de retalhos,
Adocicada pelo tempo.
O segundo...
Apenas uma expectativa,
Cheia de falsas memorias
Do que ainda não se sentiu.
Armadilhas certas para corações pulsantes.
O único amor possível de se contemplar
É o que nossos olhos podem ver.
Por isso o relógio parece nos deixar tristes.
Estamos sempre um tic à frente,
Ou um tac à trás do que podemos sentir.
Mas raramente,
Em mesmo compasso com nossa realidade.
Amarras frágeis,
Que sufocam a alma.
Assim, sem perceber...
Amores possíveis,
Se tornam invisíveis.

Pablo Danielli

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019


[Casas invisíveis]

Sentou à mesa
Percebeu o vazio,
Que habita seu lugar.
Olhou-se no espelho
Notou a falta do seu reflexo,
Falava, em vão...
Os corredores vazios
Apenas ecoavam sua falta.
Rabiscava planos no papel
Que ao ler, sempre parecia borrado.
Os retratos não eram fotografias,
Em seu olhar não se refletia,
A espera, indecifrável
Da luz perdida.
Os passos não faziam ranger a casa,
As roupas não vestiam nada além do corpo.
Portas sempre trancadas,
A espera de algo que rasgue a sensação de sufoco.
Casas Invisíveis,
Cheias de pequenos vazios...
Sonhos imperceptíveis
Afetos fragmentados
Manchado na pele,
Um lugar no sofá, marcado.
A deriva de si mesmo,
Reza...
Esperando estar sonhando acordado.

Pablo Danielli

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019


[PÓ]

Eu sou o pó
Corroído dos pés das estátuas,
Da lembrança que se passou...
Das pessoas que não são memórias.
Sou parte desta anomalia de concreto
Dos esqueletos cinzas e ruas vazias,
Que contemplam...
Rostos, hoje que são fotos em lapides.
A massa, feita de barro,
Pisoteada pelas palavras escondidas.
A força de um copo vazio
Ao lado da cama.
A beleza ausente, que toca seus lábios...
Quando o calor deixa o corpo.
A certeza tola inexistente
A malicia da dúvida persistente,
E toda estupidez latente.
Que somente o tempo
Que o ser, insiste em fragmentar...
É capaz de mostrar.
O silêncio moribundo,
E tudo nele contido.
Eu sou o pó das lembranças distorcidas,
Corroídas, que nem ao menos o sal do que corre pelo rosto
É capaz de acabar.
Eu, eu, eu...
Cujo o silêncio do universo
Ainda há de assimilar.


Pablo Danielli

sexta-feira, 27 de setembro de 2019


[A hora mais escura]

Está é a hora mais escura,
É a lama, no fundo do poço.
A mão tremula do atirador...

O medo da incerteza
Solto no ar.

Esse é o momento
Que não cabe no calendário.
É o silêncio...
Que se faz, quando todas as máscaras caem!

É quando a venda, era apenas fantasia
E a justiça...
Já estava há muito tempo corrompida.

A mancha que não sai corpo,
É o medo,
É o medo do povo...

Essa é a hora que os discursos bonitos desmoronam,
São os pés de barro, dos falsos arautos,
Manchando de sangue as sobras da dignidade.

Essa é a solidão da fé,
É o sussurro quem ninguém ouve...
Reféns, um país mantido em cativeiro.
Esse é o momento do passo em falso,
Do desiquilíbrio constante.

Aonde o poder encontra
Em certas cascas,
O dinheiro como amante.

É quando a razão vira loucura,
Um título e uma caneta
Tem mais poder que um ditadura!

Essa é a hora mais escura
Aonde as sombras ganham formas,
Quando o vazio se torna cheio...
E nada mais surpreende o desespero.

Pablo Danielli

quarta-feira, 25 de setembro de 2019


[Urubus]

Os urubus estão à espera...
Sentem o cheiro do medo,
Observam de cima o sofrimento.


Na miséria que vira rotina,
Na rotina que contamina.


Os urubus sempre parecem distantes
Gostam quando tudo está calmo.


Os urubus, sobrevoam Brasília! 


Atrás da carniça...
Que hoje são restos de poder,
Disfarçados de propina.


Longe dos olhares do povo,
Distante da realidade.


Hoje! Essas aves, são senhores do estado!


As penas pretas,
Como um manto, escondem seu caráter...
Suas garras sempre sujas...
Seus olhares atentos,
Não são capazes de esconder o cheiro...
Reis, em um país de miseráveis.

Pássaros! Que não largam velhos hábitos.



Os urubus contemporâneos são vaidosos!
Gostam de palavras bonitas, ego inflado, exclusividade,
Sala reservada, caviar, vinhos caros.

Aves sujas, com gostos sofisticados!

Urubus, urubus, urubus...
De cabeça vermelha, de cabeça preta...
Ou até mesmo brancos!

A cada bater de asas
A podridão é revelada!

Entre tantas excentricidades
Ter o povo, como escravo...

Pablo Danielli



quinta-feira, 19 de setembro de 2019


[Fantasma]


Sou um fantasma...
Amedrontado pela realidade,
Que finge ser em outros rostos,
O que não é, na frente do espelho.
Cuja luz, não queima...
Cuja sombra, não refresca...
Forma despercebida
Que tão pouco as certezas,
Conseguem sustentar.
Um farelo perdido no tempo.
O vapor que queima do asfalto.
Como um incomodo, que não tem voz...
Um desejo que nunca se realiza,
Quase morte, quase vida.

À deriva...

Sou um fantasma,
Que habita o próprio corpo,
Fuga daquilo que se diz vida.

 Pablo Danielli

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